sábado, abril 24, 2010

Teogonia

A coisa mais bonita em você é o tchau. Demorei a ver ou entender qualquer coisa. Mas são poucas as vezes que você diz, e todas são absolutamente sinceras. Se eu vou embora, você beija e pronto. O ônibus chega e a gente não pensou. Ninguém diz nem até amanhã.
Eu fico mastigando os seus restos na pele. Parece mesmo que eu multiplico na sua língua e nas suas mãos. Parece que eu crio um corpo novo e troco de pele a cada contato. Chega a parecer que é só pele. Mas há muito de cabelo e muita verdade oculta.
Não é isso? Amor e corpo e pele: a mesma coisa.
Você diz pouco com os olhos, como eu. Talvez tenhamos muito a esconder e medo desse espelho que eu tenho em você e você em mim. Você não quer ver a amargura de amanhã e eu não quero ver os sonhos do ontem. Mas você diz tchau olhando nos olhos e rasgando com isso toda a pele, a minha e a sua. Você diz tchau sorrindo como quem tem um cedro de rei na mão – ou um chicote. Você machuca quando diz tchau e fica grande como um deus.
E até ontem eu não sabia que você controlava os sete mares, nem que viajava por eles quando quisesse. Não conhecia o seu tridente e nem nada que não fosse paixão. Eu não pensava que você pudesse ser grande. Não tinha visto direito que seus olhos nasceram muito antes do resto do corpo e que tudo em você é leviano, a exceção do tchau.

3 comentários:

Ná Lima disse...

Timidez, eu acho. Ou falta de sentimento, não sei.

Só sei que gostei muito do que li e do blog. Passarei por aqui mais vezes!

Juan Moravagine Carneiro disse...

"Como a odiava e amava naquele momento...um sentimento reforçava o outro..." (Dostoiévski)

De um dia para o outro passamos a crer que (nunca amamos o outro, e sim que odiamos o resto)...assim é mais fácil se conformar com certas perdas!

Jéssica V. Amâncio disse...

muito bom!
gosto de pessoas com olhos que nascem antes do corpo, mas procuro ter cuidado com elas.
aqueles olhos podem engolir.