segunda-feira, dezembro 14, 2009

E não minta

Nunca mais eu peço paz no réveillon. Não sei se você viu, mas a cidade se cobriu novamente de luzes de natal e nós estamos apagados. Hoje eu sei que não há nada mais sincero e imediato do que andar descalço pelo asfalto. Noite ou dia. Andar descalço é o cúmulo do contato. Do sincero. Do mundo.
Não vou te chamar para pisarmos ambos na grama ou sentirmos terra entre os dedos; e nem vamos juntos à praia. Um dois três e quatro, dobro a perna e dou um salto. Viro e me viro ao revés. E se eu cair? Conto até dez.
Depois essa lenga lenga toda recomeça. Ninguém que anda descalço vive na ponta dos pés, mesmo que haja sol de rachar e chão quente. Os pés engrossam e hoje eu engrosso mais um pouco por conta da maldita paz que eu pedi no último réveillon e não veio. Não existe vida nova no dia primeiro de janeiro – e eu sei que isso não te parece nem um pouco confortável.
Ficam muitas músicas na minha cabeça e eu queimei a ponta dos dedos com água quente tentando curar uma maldita espinha que insiste em crescer logo ao lado do nariz para que eu sinta dor na face.
Posso sim aceitar que você minta para o mundo inteiro. E você mente. Desesperadamente mente. Mas, por favor, arranque as botas, ponha os pés no chão uma vez. Sinta a irregularidade das coisas e não diga que quem simplifica tudo sou eu. É uma grande mentira. Seja sincero.
Não vai ficar tudo bem amanhã por que eu continuo nas suas beiradas, te corroendo e dizendo coisas que você nem ouviu. Por que não é tão esotérico, mas é sim complicado. Por que nunca é fácil dizer não querendo dizer sim se você não cresceu mulher.
Onde esse dois mil e nove enfiou a paz? A cidade está coberta de luzes de natal e eu não ligo a mínima para qual será o meu presente. Os Beatles vão continuar tocando aqui e você vai continuar tocando aí como se nada.
Por que antes nem havia unidade entre nós dois. Por que antes não havia eu, nem você, nem nada. Só réveillon e uma paz que fica me atormentando por ser uma maldita impossibilidade.
Look all the stars. Diga que hoje ainda vai andar de pés no chão. E não minta.

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