sábado, fevereiro 06, 2010

Mistura

Não foi o que você disse quando disse não. Não foi o corte arterial de um eu te amo. Nem os sorrisos nos horários certos ou a visão de outras pessoas de mãos dadas.
Abri um pote de plástico grande na garganta e fui enchendo de raiva, paixão, sal, mel, vinagre e lágrima. Ferveu ali mesmo. Misturei sangue e mágoa.
Eu estava dormindo quando transbordou.
Não foi acúmulo.
Sem querer a cerveja caiu no tal do pote e ainda assim a mistura se manteve densa.
Quando vi, já estava do avesso e o pote era o centro de todas as coisas muito mais que a pele.
Os pêlos contavam histórias com mímica. Balé de arrepio em meus braços.
Não foi o vento.
A mistura toda derramou quando eu fiquei parada. Dormi. Sacudi o pote involuntariamente e a densidão não segurou o fogo.
Podia ter explodido, mas caiu.
O sono resolveu rever os ingredientes pra fazer análise e entender o surgimento do pote. O plástico amoleceu e descobriu-se que o problema era a fragilidade falsa da base de tudo.
O pote se manteve intacto.