terça-feira, maio 01, 2007

Diário de viagem

A verdade é que a mudez me incomoda. A mudez dela faz com que eu contenha a minha mudez. É como se eu tivesse que esganar aquele silêncio que é culpa falando qualquer coisa desnecessária e desimportante. E nessas eu me escondo e me exponho ao mesmo tempo. Queria saber quando eu vou ter tempo de me esconder de novo e de estar inerte ao mundo.
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Acho que se eu vim pra cá foi só pra me esconder. Pra fugir mesmo de todas essas coisas e de todas as pessoas que me apavoram.
Acho que não gosto muito de sentimentos. Acho que não gosto por que gosto demais e eles doem. A paixão dói. O tesão dói. A saudade dói. A felicidade dói. E a ternura dói um tanto que eu não agüento. E dói a culpa também. Dói a raiva.
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Eu tive que por pra fora. Tive que gritar quando vi a cara de felicidade dela enquanto eu chorava no auge do meu turbilhão de sentimentos. Eu não me reconhecia ali. Eu não sabia bem qual era a medida do cansaço.
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Passar o limite não é pra qualquer um. Não vou ler Nietzsche tão cedo.
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Eu não gosto dessas fontes que mudam sem que a gente peça. Eu não gosto nem desse programa de computador que eu tô usando pra falar qualquer abobrinha que aparecer.
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Acho que eu não devia me esconder pra me remoer. Acho que se moer dói. Por outro lado, meu corpo responde bem a essa remoência. A tensão diminui nas costas, mesmo que o sono não venha. Eu preciso mesmo me esvair em versos. Preciso mesmo escrever todas as coisas sem personagens. As lágrimas todas ajudam tanto a curar a dor. A dor ajuda tanto a curar as lágrimas. A dor ajuda tanto quando a gente quer ser forte.
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Eu juro que agüento tudo, menos ternura. Eu agüento qualquer tufão.
Promete que se eu disser que eu tô no limite você não vai passar? Eu fico muito ruim quando passo do limite. Eu choro, fico violenta, eu grito, fico irracional. Eu fora do limite pareço um bicho. Eu fora do limite pareço comigo.
Faz cinco anos que eu passei do limite pela última vez. Coincidência isso voltar agora. Coincidência isso ser logo agora.
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Eu disse que não acreditava em destino, mas ando tendo medo, sabe?
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No lugar em que hoje fica aquele tanque antes tinha uma roseira (e eu sei que o verbo ter não pode ser usado no sentido de existir, mas foda-se). E eu fico olhando pra todas aquelas flores do lado do tanque, mas ainda sinto falta da roseira. A goiabeira ainda está lá, como o pé de acerola e o pé de pitanga, e todos aqueles pés de fruta gostosa, e aquela horta. Tudo está ali, menos o cacto e a roseira. Eu tinha escrito meu nome naquele cacto, eu tinha botado meu nome naquela roseira. Eu gostava de tirar leitinho do cacto, eu sinto saudade dos botões de rosa.
Aquele tanque é tão vazio.
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Os biscoitos não têm o mesmo gosto em outro lugar, eu juro que aqui eles são bem mais gostosos. Seria tão bom se eu pudesse chamar os biscoitos gostosos de casa.
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Meu lugar é aí, estando sozinha ou em casa, meu lugar é em casa. Minha casa é aquele barulho todo e as brigas todas. Minha casa é essa falta de sono e esse stress e essa falta de mimo. Minha casa é esse sorriso bonito que eu vejo toda manhã. Minha casa são aquelas bochechas e aquela barriga e aqueles olhos provocadores. Minha casa é essa gente que me põe pra cima mesmo quando eu começo a pensar que não agüento. Eles sabem que eu agüento e eu também. Seria tão mais fácil simplesmente não agüentar.
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Sinto muitas saudades de casa, mesmo estando fora por alguns minutos.
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Tentei ligar, mas eles não atenderam. Eu já decorei a mensagem da secretária eletrônica que não tem o meu nome, mas é minha também. Eles tinham que saber que eu estou viva.
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O eme é uma letra que pode ter três ou duas pernas.
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Eu parei Policarpo Quaresma no começo, mas eu vou retomar. Não vai ser como foi com Crime e Castigo.
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Eu tinha frio e ele me emprestou o casaco que ela deu pra ele. E a gente foi junto procurar um cara que ninguém conhecia. Eu me perdi no caminho e ela me disse que ele anda estando descontrolado. Eu não entendo bem o que isso quer dizer, ele me parecia simplesmente um cara gentil acima do frio.
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A chuva era fina e eu agüentava bem. Frio não é ternura.
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Aquela coisa pequena veio me cutucar e meter o bedelho na minha escrita. Aquela coisa pequena não sabe, mas tem toda moral do mundo pra mexer na minha escrita. Descobri isso agora. Ele nem sabe que pode tanto quanto pode, ele nem sabe que me desperta tanto carinho e tanta ternura. Ele tem sete anos e eu tenho vontade de mordê-lo e que tudo dê certo.
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No fim eu sou só mais uma pessoa racional demais.
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Isso tudo é reflexo dessa confusão de pós-modernidade que a modernidade criou dentro dela mesma. E eu reconheço o passado no presente e o presente no passado e por mais estranho que isso pareça: aquele texto de Habermas começa a fazer algum sentido quando lido pela quinta vez.
Exagero sempre.
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Eu não quero pensar antes de escrever, quero escrita pura pra não parecer escrita falsa. Na máquina de escrever talvez eu aparecesse de verdade, talvez eu não errasse ou não consertasse.
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Eles falam comigo e eu ouço pela metade, eu sempre ouço pela metade quando não estou inteira.
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Ela quer ir a uma festa que eu já disse que não vou.
Habermas tem que descer e tem que ser hoje.
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Eu não queria te dizer, mas aquela dor de cabeça finalmente passou. E pra mim é você o retrato da ternura, mesmo quando avesso a ela.

5 comentários:

Marcela Rangel disse...

Lindo!
Lindo!
Lindo!

:)

Me lembrou muito Clarice (num jeito todo Aline Dias de ser, é lógico) e eu amo Clarice.

:**

Haroldo Lima disse...

aline, só você consegue banalizar, e fazer acreditar, de forma tão doce tudo, tudo aquilo que sacaneia, agita, e faz realmente os dias valera a pena.

bejos !!!

Simone Azevedo disse...

Eu estava extasiada com o seu texto.
Simplesmente lindo, doce, suave como as pétalas da rosa. Mas quando voce cita Habermas tudo fica nebuloso, sombrio e triste.
Ah, eu entendi Habermas depois da terceira vez que o li EU ENTENDI.
Isso merece uma comemoração.

somebody disse...

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