terça-feira, maio 29, 2007

As marcas

Ele saiu marcado mais uma vez. Comprou um cigarro na esquina. Um único cigarro era suficiente pra brindar a noite e as marcas. Gostava de cada uma delas. Gostava dum jeito quase que doentio. Ele sentia paixão naquelas mordidas, sentia o sangue correr melhor por aqueles arranhões. A dor posterior talvez fosse melhor que o prazer da hora. Aquele martírio todo talvez o tornasse puro, ou o mais perverso dos seres. E ele não tinha interesse algum em descobrir o que era ou por que era. Era hora de sentir a fumaça dançando nas mucosas, era hora de aspirar o resto de cheiro dela que ele ainda tinha grudado em si. Era hora de purificar a própria saliva. Era hora de ser invisível. Encostava-se no poste sem saber onde ela ia ou o que fazia. Encostava-se pra agüentar a dúvida que a arrogância dele tinha deixado passar. Era ele o único? As marcas eram só dele? Mais ninguém merecia aqueles dentes e ele não agüentaria ver as marcas dela em qualquer outro corpo. Mordidas eram a prova maior da paixão, mesmo que fosse coisa de uma noite, mesmo que fosse uma doença de momento. Os hematomas dele eram prova de que ela queria conhecer o gosto que ele tinha. Quais gostos ela conhecia? Quais rostos ela marcaria? Quais taras ela aceitaria?
Crianças mordem pra conhecer. Crianças mordem o que vêem. Ele queria pensar que ela não era criança mais. Se ela mordia era pra fixar o gosto, pra arrancar um pedaço. Se ela mordia era pra tê-lo nela. Pra que ele se entregasse. Se ela mordia era pra agüentar o que ele não podia.
O cigarro foi até o fim. As marcas ficariam ali. E ele buscaria marcas novas, sempre e sem porquê.