terça-feira, setembro 01, 2009

Mais uma sobre tempo

Vou eu de novo falar de tempo, de medidas, de segundos e ponteiros de relógio. Fiquei sabendo que de maio pra cá ninguém tem notícias do relógio que habitava a casa dos Braga. Os cachoeirenses conhecidos se dividem em indignados e indiferentes.
Para os conhecidos cachoeirenses indignados, é um absurdo alguém ter pego da parede um relógio que um dia pertenceu a Rubem Braga. Porque Rubem além de ser o maior cronista brasileiro é principalmente um cachoeirense nato. E todos nós que tivemos a sorte de nascer naquelas terras quentes temos muito orgulho de tudo aquilo, mesmo as águas barrentas do Itapemirim ou o tempo estranho. Os cachoeirenses de verdade tem por obrigação tácita carregar consigo o bairrismo dos arredores do Itabira.
Mas o fato é que eu não tenho relógio e nem sei se preciso. Se me roubassem um, jamais sentiria falta dos ponteiros. A ânsia louca de marcar todo tempo em unidades de medida me apavora, mesmo sendo eu uma dessas pessoas que gosta de saber a hora do planeta.
É que um relógio em si não é ruim e é bem bonito, mas o contar dos segundos de tudo tira parte do prazer das coisas como todo e qualquer padrão. Tudo que é feito com tempo muito contadinho tem preocupação demais.
Eu tenho uma tia que adora “O pequeno príncipe” e sempre me lembra que as pessoas grandes se preocupam demais com números e esquecem de saber se tem flores em casa. Esses relógios são a marca disso. Dos números que sobem à cabeça das pessoas deixando-as cegas e antipáticas.
Essa minha tia é cachoeirense e não parece se importar com o sumiço de um relógio. Mesmo ele tendo pertencido a Rubem Braga.
Mas tem outra coisa. O relógio pendurado na parede de um museu é uma afronta aos amantes dos números. Como é que pode um objeto com fins tão específicos como contar o tempo servir assim de enfeite? Pois contar o tempo deve ser papel principal e não importa se a medida escolhida é subjetiva ou as ampulhetas e os relógios de sol são muito mais charmosos!
Eu não roubaria um relógio de parede. No fim das contas, só é um enfeite muito bonito quando não está torturando pessoas com horários.
Meu problema não é o tempo, esse amante inevitável que fica ao meu lado todo dia entre flertes e risadas. Meu problema são todos esses números asfixiantes.
Então, eu não tenho relógio. Rubem Braga também não tem mais.