terça-feira, julho 29, 2008

Idílio

à Simone Azevedo

Tinha uns olhos misteriosíssimos que ela tentava adivinhar o que diziam. Não sabia. Os olhos nunca tinham sido a janela da alma e ela devia não pensar em mergulhar neles. Tinha que se concentrar na pauta e voltar a ser jornalista.
- À respeito da teoria Gramsciana dos partidos políticos atuais...
- O que?
- Desculpe. Me perdi.
- Certo. Entendo. É novata?
- Não exatamente. Queria falar de ética.
João era forte, grande e professor do departamento de psicologia daquela Universidade. Pâmela tinha que falar de ética na matéria. Ela nem se lembrava mais do mote. Nem lembrava por que tinha que falar de ética.
- E por que eu?
- É uma pesquisa, João. Diferentes visões à respeito do mesmo tema.
- Entendo.
- Então eu queria saber até que ponto a ética profissional vale mais que a ética pessoal.
- Ética é um conceito de maioria.
- Como?
- É convenção. Vale pra grupos. Nunca é universal.
- E jornalistas?
- O que quer saber?
- A relação jornalista-fonte deve ser regida por qual ética?
- Em que ponto?
- Do envolvimento. A psicanálise não fala de transferência?
- Não é a mesma relação. Um jornalista pode perfeitamente se envolver com uma fonte, sem que isso se transfira para o objeto final.
- Tem certeza?
- A imparcialidade?
- Não há nunca. Teria que me esquecer de toda a carga que tenho e que me enriquece. Imparcialidade nunca foi pretenção de ninguém. Envolver-me com alguma fonte feriria minha ética profissional?
- Na verdade, não sei se é mais importante a profissional ou a pessoal. Feriria a ética pessoal?
- Ética não era um conceito de maioria?
- O que você pensa disso?
- O que você pensa disso?
- Pâmela, talvez, como pesquisador, eu queira conhecer à fundo todos os tipos de éticas pessoais de todas as pessoas. Seria um modo de melhor encarar a subjetividade do ser humano.
- E a transferência?
- Não sou Freudiano.