domingo, setembro 09, 2007

O vizinho

Ele morava numa das casas no final da rua e ia à praia todos os dias. Eram as únicas coisas que ela sabia ao ver aquele cara passando de bermuda, carregando a prancha. Ele provavelmente usava filtro solar, já que ela nunca o tinha visto vermelho demais ou descascando. Aquilo era um sinal de que ele se preocupava minimamente com o próprio corpo e consigo. Na verdade, o corpo dele já era um grande sinal de que ele se preocupava com o próprio corpo. Ela não babava por que isso era grosseiro, mas salivava e respirava falhado quando ele passava. E ele passava todos os dias.
Ela nunca tinha parado para imaginar como era a vida dele, era apenas alguém que passava e mexia com a libido. Mexia um bocado. Ele se mexia e ela queria se misturar àquele corpo. Se imaginava poeira grudada em suor, água de mar e areia. Imaginava cenas mil e nenhuma fala. Todo aquele jogo unilateral era muito visual. E ele continuava passando.
Foi assim por alguns verões.
Felizmente, existe o carnaval, em que as pessoas matam seu superego e mergulham num mar de coragem e fantasia. Naquele carnaval, ela fez a amiga apresentá-la a ele. Se conheceram na sexta, e no sábado se encontraram mais uma vez. Ele sabia que ela morava numa casa no começo da sua rua, já a tinha visto. Isso a permitiu sorrir. Ou foi isso, ou foi a tequila. Não importa. O que importa é que, no segundo dia, os dois resolveram descobrir o que havia nos olhos um do outro com a desculpa de tentar não sorrir. Mas os sorrisos vinham. Eles vinham dos dois lados e o jogo do sério já tinha se perdido. Aí ele empurrou o cabelo dela com a ponta dos dedos e puxou-a pela nuca. Era um beijo.
O carnaval continuou e os dois se beijaram na terça-feira gorda pelo tempo que conseguiram.
Ela foi embora na quarta-feira de cinzas. Não morava na casa do começo da rua, apenas passava ali os verões e alguns carnavais. Voltou na páscoa. Ele ainda estava ali, a quaresma acabou mesmo na quinta-feira de lava-pés. Entre sins e nãos e discussões bestas, mais beijos e mãos paradas na cintura.
Ela gostava dos braços dele. Gostava muito.
Os verões demoram a chegar, mas ela teve que voltar no sete de setembro para a tão sonhada independência. Os feriados não davam tempo de paixão e conhecer alguns defeitos impediu-a de continuar. Foi fim.