sexta-feira, abril 20, 2007

Mariana XII

Mariana passou a querer apenas que o óbvio não mudasse
Que ele não deixasse de ser o óbvio.
Ela, no entanto, já não conseguia ser a mesma.
Tinha vontade de boca de leão.
Tinha vontade de não fugir daquilo.
Tinha vontade de ver e de sentir, e gostava de cada pedaço de tudo.
Mariana gostava da expectativa e do ciúme e de como aquela coisa toda não deixava nunca de ser óbvia. Era tudo lógico, era tudo bem bonito e o bom humor dela era peculiar.
Ocorre que Mariana não podia mentir à respeito de seus ciúmes, também óbvios.
Tudo bem, ela agüentava que enxergassem o óbvio como ela.
Mas ela não agüentaria ver alguém o tocando como ela não tinha coragem de tocar.
Mariana explodia por partes e reclamava pelos cantos.
Mariana reclamava à torto e a direito.
Ela lembrava da vulgaridade peculiar que Nabokov dava às suas ninfetas.
Mas ela achava que ninguém mais tinha que seguir Nabokov
A vulgaridade infantil que ficasse apenas com Mariana.
As outras não podiam brincar com o tempo.
As outras não deviam querer brincar com o óbvio do jeito que só Mariana podia.
Os dois enfim tinham dito sim.
Crises de charme, ciúme, não, todas já não existiam.
Mariana tinha passado de estágio.
E o medo que ficasse perdido no tempo
O ciúme é o sentimento da vez
E dele ela não corre, que gosta de brincar com fogo.